Este texto será o último e o primeiro…
O ÚLTIMO entre os blogues do Sapo; o PRIMEIRO entre os Blogues do Blix.
Mas, será SEMPRE mais um passo nesta caminhada pelo meu “black planet” interior, e as suas suscetibilidades e idiossincrasias com os impulsos e interações com o universo envolvente.
Nesta (em mais esta) transição, quero deixar caloroso agradecimento ao SAPO por acolher as minhas reflexões, espasmos emocionais e gritos mudos, desde 2006. 20 anos! Obrigado, de meo cordis!
Ao Blix agradeço também por me dar um destino na mudança de casa, prometendo continuar, com o “bom e o mau” que espalhei pelos circuitos do antecessor. Até já…
Avanço como um Nómada, e este texto, longe de sedimentado, está sujeito à mutação… Deriva 2!
Nómada
Esta inquietude que te eletriza o ser
Rasga memórias num farrapo incandescente,
Escassas e em permanente extinção.
Não há tempo que deixes atrás;
Só existes para gerar, e nada amadurecer.
A noite já oculta o passado antecedente;
O amanhã renovará o calvário da paixão
Pelo desapego, em pulsão voraz!
A cada novo dia, a tamanha e velha sede
De tudo em ti obliterar e transformar:
Oxigenar o caminho nunca acabado,
Esfaimar a fome nunca saciada,
Alcantilar o salto sem rede,
Afundar o abismo sem mar,
Alinhar com o prumo abaulado!
… a amarra nunca enleada…
Segues em transumância desenfreada.
A tua pátria jamais será aqui, mas logo além,
O chão pisado não é terra onde aquietes,
E gente borralheira nunca será companhia.
O horizonte faz mártir a tua atenção alheada
Dos afetos que te dedica alguém,
Dos abraços com que não te comprometes,
Dos confortos que não te aportam alegria…
Não sabem como te chamar.
Conhecem-te, mas és incógnito,
Pois nem a um nome te prendes.
Com o epíteto de Nómada,
Não te crucificas a uma estima ou lugar,
Não amoleces a vertigem pelo inóspito.
E quando se achegam, logo a fuga acendes;
Para trás, somam-se os farrapos da memória queimada…
E tu, sempre avesso ao passado,
Desembestando o presente para futuro incerto
Esqueces-te de ti, do teu crescer,
De quem foste e de quem és,
Para mutares noutro alguém, desassossegado,
Efémero, em infindável renascer, a céu aberto,
Em metamorfose imparável de perecer,
Sem que jamais se estaquem os pés!
Traiu-te o espelho da luz da vida,
Com o lúgubre embuste do semelhante.
Na rendição, crédula, aos dogmas divinos,
O desencanto estava na soberba do teu próprio ego…
Agora, em agonia, rejeitas estagnada lida,
E, sem suspiros nas partidas, continuas errante;
Enjeitando a feliz mentira, aguardas pelo dobrar dos sinos,
Enquanto avanças, intrépido, para esconjurado pego…
… e, assim, segues por caminhos que envelhecem, até à última passada da sina em terra de destino final, que te receba e dê a paz, o descanso e o silêncio interior de andarilho... Entretanto, este fado pode ser triste, mas, nisto nunca mudes, na busca pela renovação! (tal como este texto)
Música: First, Last and Always (The Sisters of Mercy)
Jorge Pópulo
Deriva 2 - XVII-VI-MMXXVI (Original - II:VI:MMXXVI)